Frestas da Porta
Era uma porta de madeira, com trinco pelo lado de dentro.
Do outro lado, dois cômodos apertados, onde viviam sete pessoas. Durante o dia, esse número diminuía — às vezes quatro, às vezes cinco.
A porta tinha pequenas frestas por onde entrava a claridade. Pelos vãos, era possível enxergar quem vinha de longe. Para nós, crianças daquele tempo, cada detalhe já era conhecido: cada ponto em que a luz atravessava era uma descoberta.
Do lado de fora, havia uma grande área descoberta e uma caixa d’água de cimento. Nos dias de lavar, ela se transformava em festa — e em piscina improvisada. Atrás da caixa, ficava o quintal, cenário de esconde-esconde. Jogávamos, sempre com cuidado para não pisar nos canos já enfraquecidos, que deixavam escapar gotas insistentes.
Ao redor da casa, os corredores estreitos mal permitiam nossa passagem. Ali, por muito tempo, acumulavam-se embalagens de tudo o que consumíamos — até o dia da grande faxina.
Com o passar dos anos, novos contrapisos nivelaram o chão. Eu sabia exatamente onde a água costumava empoçar, e por isso estava curioso para ver como ficariam as poças depois da obra. Para minha surpresa, quase não surgiram.
Um novo banheiro foi construído do lado de fora, também com fresta na porta. Usei-o pouco, mas ele foi de grande importância para todos. Logo nasceu também uma pequena cobertura, ligando a porta central ao banheiro, e um banco pintado de branco. Ali conversávamos muito, brincávamos de cartas e dominó, falávamos da programação infantil da época. Os desenhos eram disputados — crianças, jovens e até adultos paravam para assistir.
Havia ainda um atalho, que evitava a rua até chegar à casa de baixo. Mas era preciso coragem para atravessá-lo. Na sublaje, quase inacessível, escondia pequenos tesouros: uma bolinha de gude, um livro, qualquer coisa que eu julgasse importante.
O tempo passou. A criança virou adulto. A casa ganhou novos cômodos. As crianças de ontem hoje são pais, tios, padrinhos. As portas multiplicaram-se, mas as frestas já não existem. A caixa d’água ergue-se, como as demais, no alto. A casa cresceu.
E eu, do presente, carrego comigo as marcas desse passado. São memórias que me constituem, lembranças de um sobrevivente de tudo o que foi — e que segue sendo, enquanto sigo em frente.
Feito por Robert P. Campista






